Entrevista com o especialista: Cenário exportação marítima

O Brasil possui recursos naturais diversos que ainda o permitem, além de suprir a demanda interna, vender seus produtos no mercado externo. Neste artigo faremos uma análise detalhada sobre a participação do país na exportação marítima e as principais tendências para os próximos meses e anos.

Cenário de exportações do Brasil

Crescimento das exportações

O Brasil sempre foi um grande exportador de commodities, no entanto com a entrada e crescimento exponencial dos tigres asiáticos (Hong Kong, Coreia do Sul, Singapura, Taiwan) e da China no Comércio Exterior, as exportações brasileiras puderam crescer ainda mais, principalmente no setor agropecuário.

O transporte marítimo nas exportações

O modal marítimo é o mais utilizado nas transações de logística internacional, representando quase 90% das operações, por conta dos seus diversos benefícios, como:

  • custo de frente mais baixo se comparado ao modal aéreo;
  • capacidade de grandes volumes de carga;
  • possibilidade de percorrer grandes distâncias;
  • menores restrições para transporte de tipos de mercadoria.

Balança Comercial

Ano após ano, o Brasil finaliza sua balança comercial com saldo positivo, ou seja, o número de exportações é maior do que importações, resultando numa maior entrada de capital no país do que saída. Esse conceito nasceu no século XV e se tornou um indicador para entender a saúde do país. No Brasil analisamos a série histórica da balança comercial desde 1997.

Exportações – Importações = saldo da balança comercial

Em abril o Brasil registrou recorde de exportações, totalizando USD10,35 bilhões, o que representa um aumento de 67,9% comparado ao mesmo período de 2020. Antes desse recorde histórico, o mês com maior registro de exportações havia sido julho de 2020 (USD7,6 bilhões).

O resultado histórico se deve graças à alta da demanda de commodities (principal bem exportado pelo Brasil) e pela mudança na metodologia de cálculo, que exclui as supostas operações de importação e exportação de plataformas de petróleo que jamais saíram do país.

O primeiro quadrimestre de 2021 representou um aumento de 106,4% sobre o mesmo período de 2020 e o segundo maior saldo positivo da história, perdendo apenas para o 1º quadrimestre em 2017.

Dados importantes de exportação via modal marítimo

Produtos mais exportados pelo Brasil

Leia mais: Quais são os produtos mais exportados por estado?

Abaixo listamos os principais produtos exportados pelo Brasil, suas nomenclaturas e na sequência deixamos alguns dados sobre as principais exportações brasileiras.

  • NCM: 26011100: Minérios de ferro e seus concentrados, exceto as piritas de ferro ustuladas (cinzas de piritas).
  • NCM: 27090010: Óleos brutos de petróleo.
  • NCM: 12019000: Soja, mesmo triturada, exceto para semeadura.
  • NCM: 17011400: Outros açúcares de cana.
  • NCM: 02071400: Pedaços e miudezas, comestíveis de galos / galinhas.
  • NCM: 44071100: Madeira serrada ou fendida longitudinalmente, de pinheiro.
  • NCM: 02023000: Carnes desossadas de bovino, congeladas.
  • NCM: 68029390: Obras de pedra, gesso, cimento, amianto, mica ou de matérias semelhantes.

Exportações de soja

A soja ocupa o primeiro lugar no ranking de exportações, cujo principal destino é a China. Nunca o Brasil exportou tanta soja como em abril deste ano (2021), totalizando USD7,2 bilhões. Os principais estados exportadores de soja são o Mato Grosso, Paraná, Goiás, Rio Grande do Sul e São Paulo.

Exportação de café

O café ocupa a 3ª posição dos produtos agropecuários mais exportados, seu principal destino é a Alemanha que agrega valor ao café brasileiro e reexporta. Os principais estados exportadores de café são Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Bahia e Paraná.

Exportações de milho

O milho ocupa a 4ª posição dos produtos agropecuários mais exportados, seu principal destino é Irã, Vietnã e Japão. E os estados que mais exportam essa commodity são o Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, Maranhão e Goiás.

Exportações de açúcar e melaços As exportações de açúcar e melaços ocupam o 4º lugar no ranking das exportações totais, tendo como principal destino a China, e São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Alagoas e Goiás são os principais estados exportadores.

Exportação de minério de ferro e seus concentrados

O minério de ferro e seus concentrados são responsáveis pela 2ª colocação das exportações gerais e 1º lugar das exportações da indústria da transformação. O principal comprador é a China e os principais estados exportadores são: Pará, Minas Gerais, Espírito Santo, Maranhão e Rio de Janeiro.

Leia mais: Aço no Comércio Exterior brasileiro.

Principais armadores que atuam na exportação marítima:

As exportações marítimas brasileiras ocorrem principalmente no INCOTERM Free On Board (FOB) e têm como origem os portos de Santos, Paranaguá, Itapoá, Itajaí, Navegantes e Rio Grande e destinos como Rotterdam, Houston, Cartagena, Shanghai e Hong Kong. E, segundo os dados disponibilizados na plataforma da LogComex, os principais armadores que realizam exportação marítima do Brasil para o mundo são:

  • MSC (companhia italiana);
  • Hamburg Sud (companhia alemã);
  • Hapag Lloyd (companhia alemã); e
  • Maersk (companhia dinamarquesa).

Esses armadores são os responsáveis por grande parte da logística que leva produtos brasileiros para o mundo, nos tipos específicos de carga ideais para cada mercadoria.

Desafios da Exportação Marítima e como superá-los

Exportações marítimas durante a COVID-19

Além da desaceleração econômica no mundo e do desequilíbrio entre oferta e demanda (que se tornou uma barreira para o Comércio Exterior), a pandemia também trouxe desafios para as exportações concluírem seus percursos.

Como vimos acima, o Brasil é um grande exportador de alimentos, que muitas vezes são perecíveis e necessitam de contêineres refrigerados. Durante o período de isolamento, em alguns países não havia disponibilidade de transportadoras para retirada das cargas do porto, o que causou congestionamento e falta de pontos de energia disponíveis para contêineres refrigerados, e muitas cargas precisaram ser descarregadas em outro porto, algumas vezes até em outro país (que não o de destino).

Leia mais: Como a tecnologia está ajudando as negociações internacionais durante o coronavírus?

Cenário atual de exportações marítimas

Mesmo com o início da aplicação da vacina e medidas de isolamento mais flexibilizadas, ainda é possível notar alguns desafios, como a falta de container e congestionamentos em alguns portos do mundo. Pensando nisso, o blog da Log entrevistou Duílio Oliveira, diretor da empresa de agenciamento de cargas, Vixen Logistics, e Judson Magalhães, executivo de novos negócios, para contar um pouco dos principais desafios e compartilhar algumas dicas para superá-los:

Quais os principais produtos que sua empresa já ajudou a exportar? E quais foram os destinos?

Café, açúcar e concentrado de frutas para Estados Unidos, Oceania, Leste Europeu, Caribe, Polinésia e Emirados Árabes. Fios de cobre para América do Sul, América Central e África do Sul. Equipamentos de Refrigeração Industrial para Estados Unidos, América Central e América do Sul. Mármores e Granitos para os Estados Unidos. Quais são os desafios/dificuldades em realizar exportação no modal marítimo? E como superar esses desafios?

Disponibilidade de espaço nos navios, falta de equipamento (contêineres) e instabilidade dos preços dos fretes marítimos são algumas das dificuldades enfrentadas para realizar exportações via modal marítimo no cenário atual. Para superar esses desafios é importante que o exportador:

  • Realize estudos de mercado, rotas e disponibilidade de espaço.
  • Possua um agente de cargas com habilidade e eficiência na execução do produto FCL/LCL.
  • Receba orientação sobre as principais medidas de incentivo disponíveis pelo governo que podem beneficiar empresas dos mais diversos tipos e portes.
  • Informe todos os fornecedores dos prazos a serem cumpridos, transit time, para que haja uma programação de acordo e que sejam cumpridos os prazos de quem compra também.
  • Adote uma estratégia de antecipação na programação de embarques, desta maneira, a empresa exportadora/importadora terceiriza uma etapa do processo (agente de cargas), reduzindo o custo fixo e ganhando em expertise, uma vez que isso possibilita um ganho na qualidade da informação, na gestão da cadeia logística e na redução do custo operacional em função dos volumes negociados.

Quais fases você considera indispensáveis para realizar uma exportação no modal marítimo?

Respondo essa questão considerando que o exportador já tenha realizado a negociação de venda de sua mercadoria, já tenha decidido INCOTERMS etc., e resumo em dois pontos primordiais.

A primeira fase (e na minha concepção a mais importante) é a de definição do Agente de Cargas responsável por este embarque, deve-se analisar todos os custos e condições das propostas nas cotações de frete recebidas, o histórico do Agente e se este está apto para atender as necessidades do exportador.

A definição dos prazos também é de suma importância (prontidão da mercadoria, coleta do contêiner vazio, estufagem, entrega, embarque e prazo final de onde se encerra a responsabilidade do exportador).

Divulgação desses prazos para todos os stakeholders envolvidos, para que consigam se programar de acordo e, com isso, evitem surpresas desagradáveis.

Como um serviço de qualidade pode ajudar os exportadores?

Um serviço de qualidade no agenciamento de cargas ajuda a dar mais tranquilidade para que os exportadores foquem naquilo que é mais importante, ou seja, o seu produto. Isso faz com que o consumidor sinta um grau maior de confiança na empresa e no produto, agrega um diferencial competitivo para a empresa e pode facilitar o acesso a novos mercados, ou nichos de mercado (em alguns casos), aumento de vendas, crescimento da produtividade, melhora da qualidade do produto, aumento do market share e menor dependência ao mercado interno.

Você consegue perceber alguma tendência de exportação para os próximos anos?

O novo cenário está demandando reorganização urgente. Mesmo em tempos de crise surgem oportunidades, novos começos e desafios. Sem uma base sólida para tomar decisões, já que não há estimativa para o fim desta crise, o longo prazo deve ser o caminho trilhado pelas empresas para a próxima fase, tudo ainda é bastante incerto, pois a pandemia continua.

Por conta da queda das vendas no mercado nacional, houve uma crescente participação de micro e pequenas empresas na exportação, facilitado pelo programa do PNCE (Plano Nacional da Cultura Exportadora).

Os negócios do Brasil com o exterior não pararam durante a pandemia. E isso se deve ao fato de nosso País, inclusive a alfândega, ter investido muito em tecnologia e sistemas nos últimos anos, o que permite que hoje muitas atividades sejam realizadas remotamente.

Segundo o Ipea, para 2021 o crescimento das exportações deve ficar em uma faixa de 10% a 15%. Em valores, isso significaria algo entre USD200 bilhões e USD230 bilhões, a depender do valor efetivamente registrado em 2020.

Perspectivas para o futuro na exportação marítima

Houve mudanças a curto, médio e longo prazo na população mundial, e quando hábitos de consumo mudam, as demandas por compras também mudam. Analisando as exportações via modal marítimo no Brasil é possível perceber como estão esses hábitos de consumo e ter uma ideia do que irá acontecer nos próximos meses e anos.

De acordo com pesquisa da Cushman & Wakefield, 73,8% das empresas estão dispostas a migrar definitivamente para o trabalho remoto. Vale ressaltar que, antes da pandemia, quase 43% das empresas nunca tinham adotado esse método. Isso quer dizer que já se pode estudar os hábitos pós pandemia neste sentido.

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Com a recuperação da economia serão necessários mais recursos para a produção, como o minério de ferro e sucata industrial que produz o aço, utilizado em máquinas, eletrodomésticos e cabos de movimentação. Outro exemplo é que, com as pessoas passando mais tempo em casa, elas demandam novos móveis e a demanda por madeira aumenta em muitos países.

Com o avanço das vacinas, recuperação da China e Estados Unidos (que são os principais mercados consumidores de produtos brasileiros) e a ascensão do e-commerce, as exportações de bens de consumo aumentam, o que inclui vestuário, calçados, produtos de higiene e beleza.

Ainda se espera que o Brasil possa agregar mais valor a seus produtos e diversificar o seu mercado na exportação.

Artigo escrito por Kauana Benthien A. Pacheco para a LogComex

Kauana é formada em Negócios Internacionais e é pós-graduanda em Big Data & Market Intelligence. É consultora de marketing para empresas de Comércio Exterior na ComexLand.

Kauana Pacheco

Kauana é formada em Negócios Internacionais e é pós-graduada em Big Data & Market Intelligence. Kauana é a fundadora da ComexLand, onde atua como especialista em marketing focado para empresas do Comércio Exterior e Logística Internacional.

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